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sábado, 23 de outubro de 2010

Em busca de Avalon


A minha vida é um barco abandonado

A minha vida é um barco abandonado
Infiel, no ermo porto, ao seu destino.
Por que não ergue ferro e segue o atino
De navegar, casado com o seu fado?

Ah! falta quem o lance ao mar, e alado
Torne seu vulto em velas; peregrino
Frescor de afastamento, no divino
Amplexo da manhã, puro e salgado.

Morto corpo da acção sem vontade
Que o viva, vulto estéril de viver,
Boiando à tona inútil da saudade.

Os limos esverdeiam tua quilha,
O vento embala-te sem te mover,
E é para além do mar a ansiada Ilha.

Fernando Pessoa

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Não sei se é sonho, se realidade














Não sei se é sonho, se realidade,
Se uma mistura de sonho e vida.
Aquela terra de suavidade
Que na ilha extrema do sul se olvida.
É a que ansiamos. Ali, ali
A vida é jovem e o amor sorri.

Talvez palmares inexistentes,
Áleas longínquas sem poder ser,
Sombra ou sossego dêem aos crentes
De que essa terra se pode ter.
Felizes, nós? Ah, talvez, talvez,
Naquela terra, daquela vez.

Mas já sonhada se desvirtua,
Só de pensá-la cansou pensar,
Sob os palmares, ã luz da Lua,
Sente-se o frio de haver luar.
Ah, nessa terra também, também
O mal não cessa, não dura o bem.

Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.
É em nós que é tudo. É ali, ali,
Que a vida é jovem e o amor sorri.

Fernando Pessoa

domingo, 29 de agosto de 2010

Mistérios femininos: o corpo como vaso sagrado



Imaginamos o Graal como um cálice e, a maior parte das vezes, como o cálice cheio de vinho que Jesus ergueu na Última Ceia."Este é o meu sangue..." - as suas palavras e atitudes passaram a estar ritualizadas na comunhão cristã. Quando pensamos que, como recipiente arredondado, um cálice é um símbolo feminino, a ideia de um vaso cheio de sangue sugere o útero feminino e, então, o Graal adquire a possibilidade de um outro significado - o de um símbolo feminino sagrado ou misterioso, algo de transformador e curativo, com uma dimensão venerável ou divina do feminino.

Neste novo milénio, a Deusa emerge de novo - a preocupação com o planeta e a sua ressacralização, a nova avaliação do aspecto feminino da divindade, o conhecimento intuitivo da sacralidade e da sabedoria do corpo. A Terra começa novamente a ser olhada como um organismo vivo - Geia, a deusa da Terra dos Gregos. O regresso da consciência da Deusa é um regresso do Graal, mas ainda no limiar, na bruma... porém, já apercebido por muitos...

A necessidade do regresso ao Graal e à Deusa é uma história simultaneamente individual e global, que incide sobre feridas e curas, sobre esperança, integralidade e união com o todo. Se somos seres espirituais percorrendo um caminho humano, e não seres humanos que podem estar a transitar por um caminho espiritual, então a vida não é só uma jornada mas também uma busca, uma peregrinação ou uma demanda. O labirinto, como imagem, e a Lenda do Graal, como história, são alegorias que nos podem ajudar a perceber a dimensão espiritual da nossa vida.

Na Lenda do Graal, apenas três dos muitos cavaleiros que partem de Camelot o vêem realmente: Galahad, Parsifal e Bors. Galahad, o cavaleiro puro, encontra o Graal e deixa a terra numa nuvem de êxtase; Parsifal, o tolo inocente, regressa ao Castelo do Graal e torna-se no novo Rei e Guardião do Graal; Bors, o homem terra-a-terra, regressa a Camelot para contar a história. Os três cavaleiros representam três maneiras de abordar o mistério. Para Galahad, está reservado o caminho do Espírito, a comunhão directa com Deus-Pai; para Parsifal, o caminho da dedicação, do Coração, que obriga a um percurso longo e difícil na direcção da auto-realização;e, para Bors, que observa os acontecimentos, mas se mantem um pouco afastado destes, o caminho da contemplação, da Mente.

Espírito, Coração e Mente são os três caminhos representados pelos três cavaleiros que encontram o Graal. A possibilidade de experimentar o Graal através do corpo foi ignorada. Que o sagrado possa passar pelo corpo é negado em todo o lado pelas regiões patriarcais. Ora, os mistérios femininos são do corpo.

Num contexto espiritual, um mistério é uma verdade religiosa que apenas se pode saber por revelação. Vem da palavra grega mystes, que, antes do Cristianismo, estava associada a Elêusis, o recinto sagrado da deusa-mãe Deméter e sua filha Perséfone. O iniciado passava por uma profunda experiência transformadora que ele, ou ela (ambos os sexos participavam), tinha de manter em segredo. Para não poder ser revelado por palavras, ao longo de tantos milhares de anos, é porque o mistério deve ter sido a experiência em si, uma revelação inefável que transformava o participante num iniciado que nunca mais temeria a morte.

Sabemos que o mito de Deméter e Perséfone celebra a reunião da deusa-mãe com a filha, que fora raptada por Hades para o Mundo Inferior. Pode partir-se do princípio que, assim como o Cristianismo é uma religião de mistério pai/filho, assim os mistérios euleusínios mãe-filha tratavam da morte e regresso - como ressurreição, renascimento ou reunião - e que, de certo modo, o iniciado podia compartilhar do destino da deidade que ultrapassara o reino dos mortos.

Para se ser iniciado num mistério, há que haver, psicologicamente, uma experiência mística que nos modifique. Deixa-se de se ser o que se era antes. É frequente uma iniciação ter uma faceta de isolamento, de confronto com o medo, ou uma provação. Mas também pode surgir como uma dádiva da graça, em que uma beleza profunda apareceu num momento sublime do qual fizemos parte. A morte da antiga forma e a nova vida, ou nascimento, são fundamentais nas iniciações.

A gravidez pode ser uma experiência iniciática. Simbolicamente, a rapariga morre para surgir a mãe grávida. Uma mulher grávida compartilha, mesmo sem o saber, da essência da Deusa como criadora, que concebeu toda a vida a partir do seu próprio corpo. As palavras dirigidas à Virgem Maria podem muito bem ajustar-se à sua experiência:" Abençoada sou eu entre as mulheres, e abençoado o futo do meu ventre." Estas palavras dão voz à sabedoria intuitiva e mística que pode emergir nas mulheres no momento da revelação, quando compreendem que são unas com a Deusa. Quando assim acontece, a gravidez é uma barca que transporta a mulher para Avalon e o reino da Deusa, através das brumas.


Uma mulher grávida será transformada pela experiência que lhe afecta corpo e psique, sendo significativo o potencial renascimento de que é alvo - aquilo em que ela se transformará em consequência dessa viagem. A gravidez pode ser assim como a criatividade que surge quando mergulhamos nas nossas próprias profundezas e somos transformados enquanto executamos uma obra - um trabalho criativo que brota da alma e é filho desta.

A experiência maternal também se aprofunda na amamentação que pode ser vista como uma comunhão sagrada. Uma mãe que aleita o filho está a expressar sem palavras "toma, come, este é o meu corpo; bebe, este é o meu sangue", porque é literalmente do corpo e do sangue que é feito o leite feminino.

Os mistérios femininos são do corpo e da psique. Uma mulher não tem de ser uma mãe biológica para se tornar uma iniciada na faceta maternal da Deusa. Por instinto, pode doar aos outros um útero psicológico. Pode fazê-lo numa profissão em que preste auxílio ou ensine, ou como esposa, mãe ou amiga. Pode também dar à luz um trabalho criativo, que lhe vem do útero da sua experiência pessoal em que foi obrigada a sondar as suas próprias profundezas como mulher, a labutar para o dar ao mundo.


Se a gravidez é uma iniciação, a menarca, a menstruação e a menopausa são mistérios do sangue. Mas para a fisiologia se tornar em mistério, uma mulher tem de se sentir, compreender-se ou imaginar-se como Mulher, como Deusa, como uma encarnação do princípio feminino; uma tarefa bastante dificultada, ao longo dos tempos, pela sociedade patriarcal. Há outro mistério de sangue iniciático: a desfloração de uma virgem, que sangra quando do rompimento do hímen. Contudo, esta experiência física precisa de ter uma componente sagrada para realmente iniciar a mulher. Ela não se transforma automaticamente numa mulher sapiente ao perder a virgindade. Se se aperceber de que está a participar num momento sagrado no qual ela e a deusa (neste caso, Afrodite) são uma só, será possível então passar por uma experiência sacramental nas relações amorosas. 

Tal como uma mulher entrega o seu corpo para ser um receptáculo na gravidez, de certa maneira, as mulheres que são mediums místicas tornam-se no cálice donde pode emergir a consciência - assim funcionavam, por exemplo, as sibilas ou as pitonisas de Delfos. Nesse momento específico, elas estão a dar à luz a consciência da Deusa.


Quando a mulher encara o seu corpo como manifestação viva da Deusa, e se transforma assim numa iniciada dos mistérios femininos, então passa a saber que é portadora de um cálice sagrado e que o Graal se manifesta em si.


Referência Bibliográfica:

BOLEN, Jean, Travessia para Avalon, Planeta Editora, 1995

sábado, 31 de julho de 2010

Travessia para Avalon: A Floresta da Mente


Nos sonhos e na literatura, é frequente os acontecimentos darem-se em paisagens que servem como metáforas para o terreno emocional e espiritual.

Depois de sair do Castelo do Graal, Perceval encontrou-se perdido na floresta. Lá conheceu muitas pessoas e situações que o confundiram. Encontrou uma donzela chorosa lamentando um guerreiro que fora decapitado, uma donzela maltratada num cavalo velho e desgraçado, uma rapariga asquerosa, horrível de se observar, um eremita numa capela, um cavaleiro negro num túmulo, um cavaleiro morto estendido num altar, uma misteriosa mulher envergando uma túnica vermelha salpicada de estrelas, uma criança numa árvore de luzes. Deparou com animais e entre eles: um perigoso veado branco, um cavalo preto e branco, um cavalo totalmente branco e um cão branco com uma trela de ouro. Foi desafiado para um jogo de xadrez, resolveu caçar o veado, libertou o cavaleiro do túmulo. Como nos sonhos, algumas figuras eram auxiliadoras, outras hostis ou neutras para consigo, e todas as personagens e situações podiam ser interpretadas simbolicamente.

As pessoas no meio de um período de floresta talvez descubram que deparam com projecções ou acontecimentos sincronísticos: o que podemos achar adorável ou asqueroso nos outros corresponde provavelmente a características ou atitudes que são do nosso foro. Da mesma forma, talvez sejamos nós aquela rapariga repelente, o cavaleiro decapitado, ou a chorosa donzela aos olhos de qualquer outra pessoa - ou até aos nossos.


Elizabeth Stanhope Forbes

Damos connosco "na floresta", quando perdemos os habituais pontos de referência: quando deparamos connosco a pôr em causa o significado do que estamos a fazer, ou das pessoas com quem nos achamos, ou temos sérias dúvidas acerca do caminho que andávamos a seguir ou da direcção que tomámos na última encruzilhada.

A floresta, o labirinto, o "mundo-além", o mundo inferior, o mar e as profundezas marinhas são todos descrições poéticas e simbólicas da forma como  percepcionamos o inconsciente como reino. É onde estamos quando estamos perdidos, e é onde precisamos de ir para nos encontrarmos. A individuação, a necessidade de vivermos partindo das nossas próprias profundezas de uma maneira autêntica e que nos faça crescer, é uma jornada que leva o ego para a floresta.

A floresta é um lugar metafórico de perigo e transformação. Não há estradas claramente assinaladas. Se tivermos medo, as sombras podem ser sinistras; se somos temerários, a floresta pode ser um local perigoso.

Por vezes, sem intenção, somos nós que entramos na floresta. Atraídos por alguém ou alguma coisa, deixamos o  terreno familiar mudando ou abandonando relações, trabalho, família, comunidade, ou sistema de crenças. Por vezes, deparamo-nos na floresta porque alguém nos deixa, ou perdemos o emprego, ou porque um diagnóstico médico, ou um acidente, altera tudo.

Também há alturas em que nos achamos na floresta depois de encerrarmos intencionalmente uma certa fase da vida: saímos por uma porta e batemos com ela, o que nos leva aí. Não chega compreendermos que devemos partir - deixar uma relação destrutiva, um emprego, um ambiente - : temos de ser capazes de agir sobre esse conhecimento. Como no mito de Psique, temos de ter tanto a candeia (um símbolo de iluminação ou da consciência que nos permite ver a situação com clareza) como a faca (a capacidade de actuar decisivamente, de ser capaz de cortar laços).

A incapacidade de a vida continuar como de costume aparece-nos por uma quantidade de razões. Não é o acontecimento em si que a provoca, mas, em consequência disso, os abismos a que descem as nossas almas.



Quando entramos numa fase de floresta, também entramos num período de itinerância e de potencial desenvolvimento da alma. Na floresta é possível ligarmo-nos de novo à nossa natureza inata, encontrar o que deixámos na sombra e o conhecimento, ou reconhecimento, de nós próprios a que voltámos a cara, ou ainda, o mundo pessoal e patriarcal que habitamos. Aí é possível descobrir de que é que temos andado afastados, "re-lembrar" um aspecto de nós mesmos outrora vital. Podemos achar um manancial de criatividade que esteve escondido durante décadas. Aí também poderemos ser atacados por críticas ou abandonados aos nossos piores receios. Principalmente, uma vez na floresta, temos de encontrar o que precisamos para sobreviver.

Perceval passou mais de cinco anos na floresta. Como qualquer outro processo labiríntico, leva o tempo que tiver de levar. Só depois de o conseguirmos compreender, percebemos até que ponto nos modificou, o que foi destruído e abandonado, e aquilo que nasceu de nós, que descobrimos ou recuperámos ali.

Esse tempo "no buraco" pode ser considerado, de facto, como um caldeirão de renascimento e recuperação, o caldeirão céltico que foi um precursor do Graal cristão, que continha dor e trevas assim como beleza e mistério, do qual se pode sair transformado de forma significativa.

Por muito assustador que seja encontrarmo-nos no meio da floresta, por muito tempo e por muito solitários que  nos possamos sentir, é um panorama psicológico vivo e cheio de potencial. Trata-se de um local muitíssimo melhor para a alma do que um ermo...

in Travessia para Avalon, de Jean Shinoda Bolen (texto adaptado e com supressões) 




quinta-feira, 22 de julho de 2010

Travessia para Avalon

Na lenda de Glastonbury, o Poço do Cálice e o Poço Sagrado de Avalon são considerados uma só e a mesma coisa. O poço é uma nascente situada entre o Tor de Glastonbury e o Monte do Cálice. Ergue-se dentro de um poço, em pedra, com quase três metros de profundidade e corre abundantemente, dando cerca de vinte e cinco galões por dia. A água contém ferro e, embora pareça cristal límpido, o curso de água raso e os poços onde aflui estão manchados de vermelho, devido a esse mesmo ferro. Dantes, chamavam-lhe Fonte do Sangue ou Poço do Sangue.

Mais uma vez, o nome Poço do Cálice e a água tingida de ferro sugerem um vaso sagrado cheio de sangue, desta vez brotando da Terra-Mãe no local que "era Avalon". (...)

Poços sagrados alimentados por fontes no subsolo encontraram-se, muitas vezes, em locais da deusa. O poço pode ter sido ignorado mais tarde, desde que o sítio se tornou cristão - como na Catedral de Chartres, onde o poço está numa cripta, com a tampa aferrolhada. Ou um poço outrora consagrado à Deusa pode ter passado a ter outro nome, depois de consagrado de novo a uma santa: na Irlanda, esses poços tornaram-se "poços da Brígida", por causa de Santa Brígida. Na mitologia e lendas, Deusa e poço encontram-se juntos com frequência. Na mitologia nórdica, como no ciclo operático de Richard Wagner de O Anel dos Nibelungos, por exemplo, a Deusa (Erda) era uma fonte de sabedoria, e beber da nascente era um meio de "mergulhar" nessa fonte.

O jardim do Poço do Cálice tem um muro em volta e entra-se nele por um portão. No entanto, mesmo quando não está aberto aos visitantes, um fluxo contínuo de água sai por um desaguadouro para o lado da rua, onde as pessoas podem encher as vasilhas e beber, a qualquer hora.

Dion Fortune escreveu sobre o Poço do Cálice, em Avalon of the Heart, dizendo que há uma grande câmara que se abre na parede do poço, ou um recesso suficientemente grande para uma pessoa estar aí de pé, ou o Graal ser escondido, e que no solstício de Verão um raio de luz brilha direito a essa câmara interior. A câmara é feita de grandes blocos de pedra, como os usados em Stonehenge, pedra essa que se não consegue encontrar nas proximidades. O trabalho de pedreiro é perfeitamente verosímil e exacto, para ali trazido e construído por meios que não conseguimos imaginar. (...)

(...) Há muitas coisas relativas a Glastonbury que têm ar de não pertencerem a este Mundo.

VESICA PISCIS

Em latim, vesica piscis significa "vaso do peixe". O desenho básico provém da sobreposição das bordas de dois círculos de igual tamanho, passando a circunferência de cada um pelo meio do outro, e criando assim uma forma em amêndoa ou oval pontiagudo entre ambos.

Quando os dois círculos estão um sobre o outro, a forma intercalar torna-se no contorno do corpo de um peixe, que é símbolo de Cristo, um símbolo fácil de desenhar, que os primeiros cristãos usavam para se identificar pessoalmente uns aos outros. Diz-se que a razão do uso de um peixe como símbolo cristão era a palavra grega para peixe, ichthys, poder ser um acrónimo para Jesus Cristo, Filho de Deus.


Todavia, antes de se tornar um símbolo cristão, a vesica piscis era um símbolo universal da Deusa-Mãe, representando a mandorla, em forma de amêndoa, um contorno da sua vulva, donde brotava toda a vida. Para ser um símbolo da Deusa, os círculos sobrepunham-se lado a lado, e a forma amendoada tinha as pontas bicudas para cima e para baixo.


Quanto ao nome vesica piscis, diz-se que a vulva tem um ligeiro cheiro a peixe: na Grécia, a palavra delphos significa tanto útero como peixe, e há muitas associações culturais cruzadas entre deusa e peixe. As imagens da porta do templo à deusa hindu Kali e a figura feminina Sheela-na-gig, que estava gravada ou esculpida no arco de entrada das antigas igrejas irlandesas, exibem as vulvas como vesicas. E também há muitos medalhões católicos com essa forma.

A vesica piscis na tampa do Poço do Cálice incorpora os círculos sobrepostos, mas tem um desenho mais complicado. Os dois círculos estão contidos num círculo maior, ou rodela. Em ambos os lados dessa básica vesica piscis há desenhos de videira e folhas, e, no meio, existe uma vareta vertical, que parece brotar da vida da planta, na base, ou mergulhar nesta. (...)

Passei a pensar na vesica piscis, a imagem de dois círculos que se sobrepõem, como uma metáfora visual daqueles momentos em que os mundos se sobrepõem ou interpenetram, e a vida está imbuída de profundidade e significado. Para mim, essas são "experiências da vesica piscis": intersecções da intemporalidade com o tempo. Momentos que ocorrem no tempo e fora do tempo, quando o mundo visível e o invisível se interseptam; quando o mundo arquetípico e o mundo tangível se encontram; quando o Céu e a Terra, o mundo superior e o inferior, se tocam num instante liminar.
   
Neste caso, é inteiramente adequado que esta imagem esteja ligada a Glastonbury, onde se pode atravessar as brumas de Avalon e beber no poço sagrado, na imaginação literária e na lenda.


in Travessia para Avalon, de Jean Shinoda Bolen, Planeta Editora

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Travessia para Avalon: A Tradição Arturiana

Aventura, magia e romance constituem a matéria da tradição arturiana que vai buscar a sua força a diversas fontes. Dos mitos e lendas celtas derivam as histórias de Artur, de Avalon, de Merlim e das mulheres feéricas, guardiãs do Outro Mundo. Das canções de gesta medievais brotam as histórias dos cavaleiros da Távola Redonda: Lancelot, Galahad, Perceval, Gawain, e muitos outros, cujas aventuras encheram milhares de páginas de manuscritos relatando as suas jornadas pelas escuras e impenetráveis florestas do mundo arturiano. Do complexo código do Amor Cortês, surgiu uma nova atitude perante as mulheres que, ao invés de serem encaradas como mera mercadoria matrimonial, passaram a ser vistas como potenciais deusas (no contexto da convenção literária, entenda-se...). Exemplos destas heroínas são: Guinevere, Isolda, Elaine de Astolat, Elaine de Corbenic e muitas outras, também elas cortejadas, resgatadas e amadas pelos seus cavaleiros.

A quintessência da cavalaria - os cavaleiros de Artur partem na demanda de feitos heróicos, em nome da sua honra e para merecerem o amor das suas damas.(The Grail Quest Begins Tapestry, Edward Burne-Jones)

Subjacente a toda esta estrutura reside uma dimensão mais profunda, vinda de uma tradição mágica transmitida ao longo dos tempos e que floresceu na literatura medieval. O tema ancestral da interacção entre a dimensão humana e o Outro Mundo aparece constantemente no ciclo arturiano. Os segredos da imortalidade, da harmonia com a terra, do verdadeiro amor e da realização espiritual, são apenas algumas das dádivas destes heróis e heroínas. Estranhas e terríveis eram as suas aventuras, assim como estranhos e terríveis os seus adversários; magos e feiticeiras, damas encantadas, feras dotadas de inteligência humana, serpentes transformadas em belas mulheres se alguém fosse suficientemente ousado para as beijar, inimigos invisíveis, demónios, fantasmas e cavaleiros cuja armadura mudava de cor em segundos.

Frank Dicksee, Chivalry

Até a natureza se revelava irreal, com sangue a brotar de fontes, árvores com uma metade em chamas e a outra metade verde, terras estéreis tornadas férteis só com uma simples palavra...
Anéis mágicos, armas, cavalos, espadas retiradas de pedras, barcos que navegam por si próprios e figuras de xadrez movidas por mãos invisíveis, são só alguns dos elementos que compõem o mundo da tradição arturiana.
 
Não são simplesmente histórias. Nelas reside uma profundidade da experiência humana derivada de dimensões intemporais. Fazem parte da tradição Ocidental e, de um modo extrordinário e único, constituem o plano de fundo das nossas vivências quotidianas. Os mitos são intemporais e não se restringem a inclinações individuais. No entanto, são para todos:

The myths never have a single meaning, once and for all and finished. They have something greater; they have meaning itself. If you hang a crystal sphere in the window it will give off light from all parts of itself. That is how the myths are; they have a meaning for me, for you, and for everyone else. (Pamela Travers)

Ao meditarmos com as imagens e os acontecimentos das lendas arturianas, e analisarmos os seus arquétipos, podemos aprofundar a nossa consciência do seu potencial transformativo da nossa própria demanda pessoal...

Sir John Gilbert, Enchanted Forest, 1886

Referência bibliográfica:

MATHEWS, John, The Arthurian Tradition, Element Books, Limited, 1994

domingo, 11 de julho de 2010

Travessia para Avalon: A descoberta do Tor

Seja de que ângulo for, o Tor emana poder e mistério. Há algo de invulgar e escultural na forma, com os socalcos espiralados que se parecem desenrolar em volta dos seus flancos, e a torre no cume faz lembrar um megálito do tamanho dos de Stonehenge. A torre é somente os despojos de uma Igreja de São Miguel que dominava antes o Tor. Um terramoto estranho fez desabar a igreja e deixou apenas a torre.

Em Inglaterra, locais antigamente consagrados à Deusa foram arrebanhados pelos cristãos de uma de duas maneiras: construindo-se igrejas dedicadas a São Miguel, como no Tor, ou capelas em louvor de Maria. Geralmente, representa-se São Miguel a pisar uma serpente, que era um símbolo da Deusa, e que também representava as correntes de energia telúrica ou "linhas de ligação" - assim chamadas em Inglaterra - que "serpenteiam" sob o solo em locais sagrados.

Na China, tais linhas designam-se por lung-mei, os caminhos do dragão: até hoje, na moderna Hong Kong, os geomantes são consultados acerca dessas correntes do dragão antes de se construir edifícios. As zonas onde a energia é mais forte tornam-se em locais sagrados, ou, por palavras correntes, pontos de poder.

As imagens associadas a essa energia são arquetipicamente semelhantes, esteja-se na Europa Ocidental ou na China. A cobra, o dragão chinês e a serpente têm todos corpos ondulantes e poder. Mas, enquanto nas culturas que respeitam a Terra, o dragão foi julgado benevolente, nas culturas judaico-cristãs onde a Terra (as deusas e as mulheres) tinha de ser subjugada, dragões, cobras e serpentes deviam temer-se - espezinhados por São Miguel, expulsos por São Patrício, ou mortos por São Jorge. (...)

O segundo processo de usurpar os locais da deusa era construir aí capelas, ou catedrais, em louvor de Maria. Como expressão feminina da divindade, Maria é arquetipicamente a Deusa-Mãe. (...) Porque, pondo de parte os pontos discriminatórios invocados pelos teólogos, o homem ou a mulher que reza a Maria está a falar com a mesma deusa compassiva cujo nome era, entre outros, Deméter, Ísis, Tara ou Kuan Yin, deusas essas que compreendiam, como Maria, o sofrimento. A filha de Deméter, Perséfone, foi raptada para o mundo inferior, e o filho de Ísis, Osíris, foi desmembrado, mas, tal como o Filho crucificado de Maria, tanto Perséfone como Osíris ressuscitaram. Quando se erigiram capelas a Maria, em antigos sítios de deusas, com efeito, estas foram re-consagradas e re-nomeadas: são locais onde se pode dizer que a Deusa continua a ser homenageada. (...)


Passeio no Tor
(...)
Ao ver-se o Tor de longe, a torre chama a atenção e parece ser o destino dos caminhos em espiral. No entanto, no Tor (...) tive várias impressões. A torre parecia, então, uma estrutura imposta, um artefacto que não pertencia ao todo. Em contrapartida, senti que aquele poder residia no próprio monte em forma de útero. Em vez de sentir um impulso para ir até ao cume, pareceu-me que devia haver um túnel, a partir de baixo, que penetrasse no monte.

Tais pensamentos, descobri depois, revelaram-se conjecturas antigas que outros tinham feito acerca do Tor: haveria um local oco ali dentro? Teria o Tor uma entrada para o mundo inferior? Geoffrey Ashe escreve: "Até hoje persiste uma lenda local afirmando que o Tor tem uma câmara no seu interior. Habitualmente diz-se que a câmara fica por baixo do cume, talvez a uma distância grande abaixo deste. Diz-se que houve pessoas que descobriam um caminho e saíam de lá loucas."

Na mitologia céltica, o mundo-além, o reino subterrâneo é Annwn, um reino de fadas. Tem-se associado esse reino com o Tor de Glastonbury. (...)

Túneis e subsolos ocos são imagens universalmente associadas à Terra-Mãe, como útero e túmulo, com a Deusa que nos dá vida e nos volta a possuir na morte. É certo que a Terra funciona como um caldeirão de regeneração: tudo morre e tudo vai para a terra ou para a atmosfera da terra, sendo reciclado e regenerado numa nova vida. A Terra-Mãe é igualmente o caldeirão da abundância, do qual vem tudo o que é necessário para alimentar a vida.

O Tor de Glastonbury, de forma uterina, suscita ideias acerca do mundo-além e de espaços ocultos debaixo do chão.

(...) De qualquer forma, o que é o Tor? Porque estejam nas profundezas da terra ou nas profundezas das psiques, na consciência, quer do visitante quer do nativo, vêm sobrenadar imagens relacionadas com o mundo-além e a Deusa.

Para mim, passar pelo Tor e acudirem-me impressões, que se revelaram como parte de lendas e conjecturas, ajusta-se ao que se tem dito sobre Glastonbury: é realmente um sítio onde o véu entre os mundos é mais fino. (...)
in Jean Shinoda Bolen, Travessia para Avalon, Planeta Editora





domingo, 27 de junho de 2010

Seguindo Caminho


Labirinto da Catedral de Chartres

Vamos dedicar um pensamento a todos aqueles que, século
após século, tomavam o bordão do perergrino, fossem
pagãos ou cristãos, e partiam por estradas, que mal
chegavam a ser trilhos, através de rios, que quase
se não podiam vadear, pelo meio de florestas, onde o lobo
caçava em alcateias, através de pauis de lama movediça,
onde se enluravam serpentes-de-água venenosas:
sujeitos à chuva, aos temporais ventosos, ao granizo saraivante,
atingidos pelo Sol ou gelados pelo frio, tendo à noite,
como único abrigo, a fralda do hábito puxada
por cima da cabeça; tudo isto depois de deixarem lar
e família sem saber se os voltariam a ver,
para chegar - pelo menos uma vez na vida
- a um lugar onde habitava a divindade.

Louis Charpentier, The Mysteries of Chartres Cathedral