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quarta-feira, 9 de março de 2011

O Caldeirão de Annwn



Annwn era o Outro Mundo dos galeses, uma terra idílica de paz e abundância, animada com o canto dos pássaros. Em Annwn havia uma fonte de vinho doce e um caldeirão mágico. Este caldeirão,  guardado por nove donzelas, curava os doentes e devolvia os mortos à vida. O soberano de Annwn era Arawn das vestes cinzentas. Arawn tinha uma matilha de cães de fila, "os cães do inferno" celtas que voavam durante a noite perseguindo as almas humanas.

Segundo a tradição galesa, o jovem e impetuoso Artur perdeu a maioria dos seus guerreiros numa tentativa defraudada para roubar o caldeirão mágico.  Esta demanda é contada num poema - "The Spoils of Annwfn"- sendo considerado por muitos como um modelo para a história da Demanda do Santo Graal.

O bardo Taliesin acompanhava relutantemente Artur e os seus guerreiros pois estava bem ciente dos perigos de entrar sem permissão no Outro Mundo. E, apesar dos seus avisos, o jovem rei prosseguiu na sua louca aventura.

Antes de chegarem ao Castelo do Caldeirão, os homens passaram sete fortalezas envoltas numa luz misteriosa e crepuscular. Eram aguardados pelos Sempre Jovens. Não se sabe ao certo o que aconteceu. Os eventos exactos são misteriosos como a terra onde estavam. Só se sabe que foi uma batalha terrível e que seria a primeira e última vez que Artur combateria o povo de Fay.

Artur conseguiu chegar junto do caldeirão mas foi capturado e atirado para a prisão dos Estranhos Muito Estranhos. Era uma prisão feita de ossos dos mortais e onde outros três humanos de sangue real pereciam eternamente por terem ofendido os Fay. Artur ali esteve três dias e três noites, em grande agonia, até ser salvo por Bedivere e Llwch Lleminawc. Muito combalido, Artur não falou durante um dia e uma noite e depois só chorava.

Apesar de terem sucedido no roubo do caldeirão, dificilmente se sentiam vitoriosos pois dos três navios que tinham partido, só sete homens regressaram. O rei acabou por recuperar o juízo mas proibiu terminantemente que se falasse do ataque a Annwn. 

domingo, 26 de dezembro de 2010

A Lenda do Caldeirão de Clyddno Eidyyn


Merlin foi o mais poderoso de todos os magos e profetas da Bretanha. Era filho de uma sacerdotisa com um incubo. Do demónio do pai herdara a inteligência, da mãe o belo físico. Já na velhice, Merlin tornara-se um grão-druída. Vivia em Avalon, cercado por sacerdotes e sacerdotisas. Fora conselheiro do poderoso Rei Arthur.

No seu reino, construído sobre os mistérios do mundo, assistiu à invasão dos saxões e à chegada dos cristãos, que aos poucos, dominaram toda a fé das ilhas britânicas. Ameaçado pelos princípios e tradições cristãs, o velho mago assistiu à perseguição aos costumes dos druidas, e a extinção da sua fé. Merlin aprendeu a odiar os cristãos.

Ignorando os invasores da Bretanha, Merlin continuou a praticar as mais poderosas magias. Conhecia todos os mistérios do céu e da terra, dos homens e dos deuses, da vida e da morte. Para combater a ameaça da cristianização do seu povo, Merlin reuniu, em Avalon, os maiores cavaleiros dos reinos celtas. Ao lado de tão rudes, valentes e sanguinários homens, partiu numa busca infindável, por todas as terras das ilhas britânicas, dos Treze Tesouros da Bretanha, dados pelos deuses aos seus antepassados, e que se encontravam dispersos. Ao reunir os treze objectos sagrados, Merlin tornar-se-ia o mais poderoso de todos os magos, invencível, capaz de derrotar todos os invasores. Ao devolver os objectos aos deuses, eles compensariam com vigor as ilhas e o seu povo.

Doze dos tesouros foram encontrados e reunidos. Faltava o décimo terceiro, o caldeirão de Clyddno Eiddyn. O poderoso caldeirão não poderia ser encontrado por um cavaleiro, e sim por uma virgem. Para cumprir a missão, Merlin lançou mão da mais bela das suas sacerdotisas, Nimue, por quem nutria uma grande paixão.


Diante do caldeirão, Merlin confidenciou à amada que de dentro dele viria a poção da vida eterna. Fascinada pela promessa, Nimue aprisionou Merlin num carvalho, e roubou-lhe o precioso objecto. A bela amante do mago desapareceu, levando o caldeirão. Preparou nele todas as poções mágicas que aprendera com o mestre e, na ilusão de que alcançaria a beleza e juventude eternas, atirou-se ao caldeirão, morrendo escaldada.

Ao libertar-se da prisão do carvalho, Merlin procurou em vão, pelo caldeirão mágico. Reuniu os mais valentes dos cavaleiros britânicos, mas jamais encontrou o poderoso talismã. Perdido o caldeirão de Clyddno Eiddyn, as iniciações dos cultos aos deuses pagãos enfraqueceram. Outra fé tomou conta da Bretanha e Merlin viu a suas tradições perdidas e os seus deuses extintos.


(Lenda Medieval)

sábado, 9 de outubro de 2010

Caldeirões Mágicos


Os caldeirões mágicos são um motivo recorrente na mitologia celta. Alguns transbordam de abundância, outros devolvem a vida aos mortos, enquanto outros ainda contêm uma receita especial de sabedoria. O gigantesco Caldeirão da Abundância de Dagda provia grande quantidade de carnes deliciosas: não havia herói que ficasse com fome depois de um prato daqueles, embora os cobardes não tivessem direito a uma refeição completa.


Do enorme Caldeirão do Renascimento de Bran, os guerreiros saíam vivos mas mudos; outro Caldeirão do Renascimento encontrava-se em Annwn guardado por nove donzelas. Os Caldeirões da Inspiração continham caldos ou guisados de sabedoria. O mais famoso pertencia à deusa Ceridwen, cujo caldo mágico investiu Taliesin de clarividência. Alguns caldeirões, como o de Dagda, combinavam as propriedades mágicas da abundância e do renascimento. Vasos ou cálices misteriosos surgem também nos mitos gregos e orientais como recipientes sagrados de percepção espiritual. Os antigos caldeirões celtas foram porventura reformulados no Graal arturiano, que transborda de alimento espiritual e faz o herói ultrapassar a morte pela imortalidade.
O Graal, ou Sangreal, apareceu aos cavaleiros da Távola Redonda emanando uma luz fulgurante na qual se viram uns aos outros com maior ponderação e generosidade do que antes. A visão calou-os, tal como os guerreiros celtas emergiam do Caldeirão do Renascimento, vivos mas mudos. O Graal em si, envolto em samito branco, tinha a forma de um Cálice da Eucaristia, recordando a taça da Última Ceia. O cálice imbuíu o salão de doces aromas, e os cavaleiros comeram e beberam como nunca, o que lembra os Caldeirões da Abundância celtas.

Iluminura, c. 1400 

Caldeirões do Renascimento (em baixo) seriam certamente grandes banheiras onde cabiam os corpos dos guerreiros alvejados. Aqui, um deus enorme parece mergulhar os guerreiros numa grande selha ou vaso enquanto as tropas montadas galopam em cima, após o seu mergulho de regeneração.

 Caldeirão Celta, Prata Dourada, 100 AC


Os caldeirões celtas variavam muito de tamanho, mas caldeirões lendários como o de Dagda (o grande deus da mitologia irlandesa,  chefe dos Tuatha De Danann - "o povo da deusa Dana") seriam tão grandes que tinham de ser transportados sobre rodas ou por um carro. Este carro de culto (à esquerda) representa um desses caldeirões monumentais. Os heróis montados com os seus elmos cristados, possivelmente caçadores, viajam triunfalmente para a caçada, ou regressados desta. Os dois veados, mais os caçadores, sugerem que a divindade que suporta o caldeirão da abundância é o deus da caça Cernunnos. (Carro de Culto, Bronze, 100 AC)
Referência Bibliográfica:

COTERELL, Arthur, Enciclopédia de Mitologia, Central Livros, 1998