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sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O Romance de Amadis: III - Elisena

Anne François Louis Janmot
   Como tudo estivesse sossegado e o ermo silêncio lhes fosse aconselhando ânimo, logo naquela noite Darioleta encaminhou a infanta e, cautelosas, saíram ambas ao pomar. Fazia luar muito claro. Darioleta, olhando Elisena, abriu-lhe o manto, remirou-lhe o corpo, que ela trazia nu, só com camisa, e segredou, rindo baixinho:
   - Em boa hora nasceu aquele que vos vai ter!
Sorriu a infanta e tornou-lhe:
   - Dizei antes que fui bem-aventurada em me dar Deus tal senhor.
   Com passinhos tão aveludados quanto lho ia pedindo o melindre da empresa, foram as duas andando à surda, sob a Lua.
   Entretanto Perion, com a queixa do coração e a esperança que Darioleta nele lhe fora plantar, não pudera adormecer. Caíra agora em modorra, e sonhava; padecia aflito os tratos que lhe estavam dando, pois é maravilha representar-nos a mente tão vivo o que só nela própria se engendra. Sonhava que alguém entrara por uma porta falsa naquela câmara, sem que se pudesse defender do inimigo chegado à sua beira.
   E o inimigo fora-se a ele,  abria-lhe as costas com as unhas e tanto remexera que lhe agarrara o coração.
   - Porque me fazeis tal crueza? - gemia Perion a labutar nas vascas do pesadelo.
   Afogado em dor, vira el-rei o seu próprio coração levado à janela, donde fora atirado às águas de um rio.
   Enquanto el-rei Perion pelejava no sonho, a infanta e a sua guia vinham chegando à porta da câmara. Elisena tremia toda. Ao tocarem na aldraba, o ferro tiniu. Perion acordou espavorido e benzeu-se.
   Neste ponto iam entrar as donzelas e, como ele sentisse rumor, temeu-se de traição e saltou do leito, empunhando a espada contra os vultos.
   - Senhor, isso que é? - segredou-lhe Darioleta.
   Reconhecendo então Elisena, foi tomá-la Perion nos braços. Darioleta disse à infanta:
   - Ficai, senhora, que se vos defendestes de muitos, e ele de muitas também se defendeu, mandou Deus que vos não defendêsseis um do outro.
   E, vendo a espada de e-rei, tomou-a a donzela em sinal do juramento que ele fizera, e saiu.
   Perion, olhando Elisena à luz das tochas que ardiam, parecia-lhe que nela se ajuntavam todas as formosuras do mundo.

Edmund Dulac
   Antes de a alva romper, veio Darioleta pela infanta e, indo as duas dormir, nada se soube em palácio.
   Assim em dez noites seguidas  se amaram Perion e Elisena, e em cada uma guiava Darioleta a infanta até à câmara onde os desígnios do Senhor se cumpriam.
   Por isso o Senhor juntara os dois, mudando para tal fim a um e a outro: a ele, tirando-lhe a liberdade com que correra aventuras, fazendo-lhe a ela baixar os formosos olhos à terra. Em uma noite, perguntou Elisena ao que já tinha por esposo:
   - E quando vos fordes, que há-de ser de mim?
   Respondeu-lhe Perion, sentindo já também a dor da ausência:
   - Quando eu me for deixo-vos o coração, e ele nos dará forças, a vós para esperar um tempo, a mim para cedo tornar.

Frank Dicksee, La Belle Dame sans Merci, 1900
   Ao cabo daqueles dias el-rei Perion acordou e obrigou sua vontade, decidindo-se à partida. Bem se pode dizer que acordara, porque o verdadeiro amor, ao encher coração de homem, de tal sorte o eleva e apura que o livra do peso do mundo. Além da pena principal que lhe fazia o apartar-se de Elisena, sentia el-rei outro grande cuidado, e este lho estava dando o sonho que tivera naquela primeira noite do seu amor. Queria saber como os sábios do seu reino entenderiam aquilo do coração deitado ao rio, pois desde que tal coisa sonhara não pudera recobrar o ânimo seguro. Tinha o sonho por aviso misterioso ou temerosa profecia.
   Despediu-se de el-rei Garinter com palavras de muita cortesia, e ouviu outras de grande estimação. Mas,  quando quis cingir a espada, não a achou. Acanhou-se de a procurar e não se atreveu a pedi-la, o que muito lhe custava, porque a espada era boa e formosa.
   E partiu daquele reino.
   Porém antes falara com Darioleta, com quem desabafou a pena em que ia e lhe contou aquela em que sua senhora ficava.
   - Senhor, a minha senhora não pode viver sem vós!
   - Pois eu vo-la recomendo como se fosse a minha alma!
   E, tirando do dedo um formoso anel, de dois iguais que trazia, deu-lho para que lho levasse por seu amor.

O Romance de Amadis, reconstituído por Afonso Lopes Vieira

quinta-feira, 26 de julho de 2012

O Romance de Amadis: II - Darioleta

Paul Delaroche, L' Art Gothique ou le Moyen Âge

Carregados que foram em dois palafréns o leão e o veado, para a vila se encaminharam com grande prazer os senhores; do que sendo avisada a rainha, de mui ricos atavios se enfeitaram os paços e foram postas as mesas. Quando se juntaram para comer, sentaram-se a uma mais alta os dois reis e a rainha, com a infanta Elisena em outra a par desta; e ali foram servidos como em casa de tão bom senhor convinha.

Pois, senhores, sendo a infanta tão virtuosa e Perion tão alto cavaleiro, em tal hora se olharam que o grande recato dela não pôde tanto que não fosse presa de amor; e Perion assim também da infanta, pois seu próprio coração o havia livre. De maneira que, um e outro, todo o tempo estiveram como se as almas que até ali tinham tido lhes tivessem saído dos corpos e outras houvessem entrado que eles próprios não conhecessem. Recolhendo-se a rainha à sua câmara, levantou-se Elisena e, caindo-lhe do regaço um anel que tirara para se lavar, a fim de o apanhar se baixou, quando Perion o tomou e lho deu.

No dar e receber anel, as mãos deles encontraram-se e Perion apertou a da infanta, que, olhando-o com amorosos olhos, lhe agradeceu, corando.
Perion disse-lhe baixinho:
- Não será este o último serviço, pois toda a vida a quero empregar em vos servir!
Tão turbada se foi Elisena que a vista quase perdia. É que o efeito do amor, em alma que fora tão isenta, ia lavrando com dobrado lume.

Não podendo calar dor tão nova, descobriu o seu segredo a uma donzela da corte de quem muito se fiava e se chamava Darioleta. E, com lágrimas nos olhos e ânsia no coração, pediu-lhe conselho sobre como poderia saber se Perion amava outra mulher e se aquele amoroso rosto, com que a estivera olhando, seria prova de amor igual ao seu. Pasmou Darioleta com tal mudança em pessoa para quem estas coisas eram tão desusadas. Teve por caso peregrino que assim, de súbito, quisesse saborear o humano quem até ali desdenhara quanto não fosse divino. Porém logo prometeu servi-la, vendo que o amor não deixara em sua senhora cantinho onde coubessem razão ou conselho.

Determinando-se, pois a ajudar sem detença a nova enamorada, encaminhou-se Darioleta para a câmara d'el-rei Perion, a tempo que o escudeiro de el-rei ia levar os vestidos do seu senhor. Pediu-lhos a donzela, dizendo que ela mesma os levaria.
Tomando por maior honra o que a seu senhor se fazia, deu-lhos o escudeiro; e Darioleta, entrando na câmara de Perion, por este foi reconhecida como a donzela da infanta:
- Boa donzela, que me quereis?
- Senhor, dar-vos de vestir.
- Nu de alegria está meu coração!
- Porquê, senhor?
- Porque sempre livre fui, a este reino livre vim, e agora recebi ferida mortal. Se me achásseis remédio, eu vos daria bom galardão.

Respondeu Darioleta que muito a contentava servir tão bom senhor, se soubesse em quê. Ora, Darioleta sabia muito bem aquilo em que poderia servir el-rei Perion. Mas alegrava-se de o ouvir falar do amor que Elisena lhe merecia, comparava as palavras dele com as que lhe ouvira a ela, e tudo ia encaminhando ao ponto que desejava.
Respondeu-lhe el-rei:
- Se me prometeis guardar segredo do que vos eu disser, descobrindo-o só onde de razão, então direi.
E, prometendo-lho Darioleta, disse-lhe Perion que vivera até ali sem haver empregado o coração; que andava costumado a correr aventuras, mas não a penar cuidados; que em forte hora olhara Elisena, pois tão cuidoso estava que se julgava a ponto de morrer, e enfim que morria se não achasse algum remédio.

- Eu vos digo que nunca pensei que o amor fosse assim! - acabou Perion por confessar. - Mas, pelo que estou sentindo, sei agora como ele é.
Tornou-lhe a donzela:
- Senhor, se me prometerdes como cavaleiro, guardando em tudo  a verdade a que mais obrigado sois como rei, de, a seu tempo, a receber por mulher, então eu farei coisa que não só o coração vos contente, mas também contente o dela, onde mora amor igual. Porém, se o não prometerdes, minha senhora não alcançareis, nem vossas palavras tomarei como de honrado amor.
El-rei Perion, que obedecia também ao mando de Deus para que tudo sucedesse como adiante ouvireis, pôs a mão na cruz da sua espada, e jurou:
- Juro nesta cruz e espada, com que a Cavalaria recebi, de fazer quanto por minha senhora Elisena requerido for.

Alegrou-se Darioleta e despediu-se:
- Pois folgai ora, que eu farei o que vos disse!
Buscando a infanta, contou-lhe quanto se passara com el-rei Perion, e repetiu-lhe as palavras de tão seguro amor que tinha ouvido ao novo enamorado.
Elisena abraçou-a, tomada de uma alegria como não sentira nunca:
- Oh! Minha amiga verdadeira! Mas quando soará a hora em que em meus braços aperte a quem por senhor me foi dado?

Explicou-lhe Darioleta que, dando a câmara de el-rei Garinter para o pomar, a ela iriam seguras quando todos à noite estivessem a dormir. E lembrando-lhe Elisena que na mesma câmara ficava el-rei seu pai, a donzela prometeu que tudo havia de fazer bem.
Quando caiu a noite, Darioleta apartou-se com o escudeiro de el-rei Perion e perguntou-lhe:
- Ora dizei-me lá: quem é a mulher a quem vosso senhor ama com entranhado amor?
- O meu senhor - respondeu, rindo, o escudeiro - ama a todas, mas a nenhuma, afinal!
Ficou a donzela contente de receber resposta que tão bem acertava com o que a tal respeito lhe dissera o próprio Perion.

Neste ponto acercou-se el-rei Garinter e, vendo os dois conversando, perguntou à donzela que tinha ela que dizer àquele escudeiro.
- Por Deus, senhor, ele é que me chamou e disse que seu senhor costuma dormir sozinho em uma câmara, e vossa companhia certo o estorvará.
El-rei Garinter, muito honrado com o hóspede e querendo que ele se achasse bem, logo foi dizer a el-rei Perion que, levantando-se a Matinas, por ter muito em que lidar, o deixaria só para lhe não fazer estorvo.
Quando Darioleta viu que os reposteiros levavam de ali a cama de el-rei Garinter, foi contar à infanta quanto sucedia.

- Senhora - disse-lhe a donzela - fiz quanto vos prometi, mas temo que um dia julgueis que ajudei ao erro.
- Boa amiga - respondeu Elisena -, creio que Deus assim o quer! O que parece agora erro, será ao depois grande serviço seu.
E deste modo estiveram elas até que todos foram dormir.

O Romance de Amadis, reconstituído por Afonso Lopes Vieira

(continua)

quinta-feira, 21 de junho de 2012

O Romance de Amadis: I - Perion

   
Senhores, ouvide o Romance de Amadis, o Namorado. Escreveu-o um velho trovador português, mas depois um castelhano, trocando-lhe a língua e o jeito, da nossa terra o levou. Porém as mais nobres mentes de Espanha já por nosso o dão.
   Em Portugal tem a segunda pátria o espírito heróico e amoroso da Távola Redonda.
   E o conto é o do amor mais fino e fiel, de português amor, rendido como ele é só.
   Ao começar o Romance, invoco a memória do cavaleiro-poeta que o compôs, para que me alumie. Invoco a alma de Portugal que aprendeu com Amadis a ser gentil e forte e a prezar a flor da Honra.
   E vós que amais com amor heróico e fiel, que amais o amor, ouvide a história como eu a senti.

   Não muitos anos depois da Paixão do nosso Salvador e Redentor Jesus Cristo, houve na Piquena Bretanha um rei, por nome Garinter, piedoso cristão e senhor de lhanas maneiras.
   Teve este rei duas filhas de sua mulher, boa dona. A mais velha casou com Languines, rei de Escócia; e a essa se chamou a Dona da Guirlanda, porque de uma grinalda mui rica quis seu marido que ela sempre toucasse os formosos cabelos, tanto gosto lhe dava olhá-los; e por filhos houveram Agrajes e Mabília, de quem adiante se fará menção.
   Porém, a outra filha, chamada Elisena, era muito mais linda que a irmã, e tão virtuosa que parecia ser Deus o único senhor capaz de estimar tal criatura. Haviam já pedido a sua mão muitos príncipes dignos de a esposar, os quais demandavam a corte da Piquena Bretanha sabedores da formosura e virtudes que nela resplandeciam.
   Mas todos se tinham ido sem ser aceites por noivos.
   - Filha - dizia-lhe el-rei Garinter, a quem custava esta isenção da infanta -, estou já de muitos dias; quisera eu, antes de dar contas a Deus, deixar-te segura nas voltas do mundo.
   Mas como Elisena só aos gozos da religião se inclinava, sem mostrar outro fito que o do Céu, tanta esquivança deu azo a que a apelidassem a Devota perdida.
   Ora, este rei Garinter, quando o tempo ia brando, saía algumas vezes a montear, para espalhar cuidados. Uma vez que se apartara dos monteiros e pela espessura andava a rezar as suas Horas, viu um cavaleiro desconhecido que com dois outros pelejava, e nestes reconheceu dois vassalos, de quem, por soberbos e descorteses, el-rei andava queixoso. Mui bravo era o que acometia sozinho os dois juntos, pois com tão natural galhardia se guardava e investia com eles, que da sua parte mais parecia desenfado que peleja, seguro como se achava de si o cavaleiro desconhecido.
   El-rei Garinter, que se arredara, olhava o combate desigual, e achara que Deus fora justo quando caíram mortos por terra os maus vassalos.
   Isto feito, veio o cavaleiro a el-rei e, vendo-o só, perguntou-lhe:
   - Amigo, que terra é esta em que os cavaleiros são salteados?
   - Não vos faça isso espanto - retrucou el-rei - que em todas as terras há bons e maus cavaleiros; e desses que dizeis muitos tinham agravos, e até seu mesmo rei.
   - A esse rei quero falar - tornou o cavaleiro - e se sabeis onde pára, dizei-mo por favor.
   Não quis el-rei Garinter alongar por mais tempo o engano, e respondeu:
   - Pois sabei que o rei da Piquena Bretanha, eu o sou.
   Ouvindo esta resposta, entregou o cavaleiro ao escudeiro o escudo e o elmo, e foi abraçar el-rei Garinter, dizendo-lhe que era el-rei Perion de Gaula e que muito quisera conhecê-lo. Ao som deste nome deveras folgou o senhor bretão. Conhecia ele Perion por sua fama alta e honrada, pela bravura e gentileza da sua cavalaria, as quais, sendo aquele rei moço como era, tão celebradas andavam por todos os reinos da Piquena e da Grã Bretanha. E, do coração, deu-lhe as boas-vindas, convidando-o com honra para hóspede. Alegres se juntaram os dois senhores e dispuseram-se a procurar os monteiros para se recolherem à vila de Alima, donde el-rei Garinter partira para montear.
   Prosseguiam os dois, discorrendo em cousas aprazíveis; e el-rei Garinter ouvia com gosto quanto lhe ia dizendo o senhor de Gaula, em cujas palavras a cortesia emparelhava com o nobre juízo.
   - Tão moço é ainda - pensava o da Piquena Bretanha - e assim na bravura é ousado como na mente esclarecido. Ditoso o pai que a este houver de dar filha!
   Súbito, pelo caminho saltou-lhes um veado escapo da montaria e atrás do qual correram os reis, a fim de o lancear. Já quase o tinham debaixo dos ferros quando um leão, que rompera das brenhas, alcançou o veado, atassalhou-o, e pôs-se a olhar sanhudo os caçadores, como quem preara bocado que julgava ninguém disputaria.
   Vendo isto, desmontou el-rei Perion do cavalo, que a vista do leão espantara:
   - Pois não há-de ser teu! - bradou Perion.
   Sem que o estorvassem as vozes de el-rei Garinter, com as quais lhe pedia não desse batalha a tão bruto inimigo, Perion endireitou à fera, com escudo embraçado e a espada na mão. Logo o leão deixou a presa e, furioso de ver que o contestavam, arremessou-se contra quem lhe negava os direitos de tomador. Juntando-se ambos, o leão o teve debaixo, prestes a esquartejá-lo. Já el-rei Garinter lastimava que a mocidade do senhor de Gaula o fizesse por gosto ser pasto de feras. Mas pouco durou o temor que o esfriava, porque el-rei Perion, não perdendo o ânimo no apuro, ensopou a espada no ventre do leão e matou-o.
   Perto soaram as buzinas dos monteiros, que logo vieram e rodearam a seu senhor.
   E do que viu se admirou el-rei Garinter, entre si dizendo que não sem causa el-rei Perion era tido pelo mais esforçado cavaleiro do mundo.

O Romance de Amadis, reconstituído por Afonso Lopes Vieira

(continua)