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domingo, 26 de dezembro de 2010

A Lenda do Caldeirão de Clyddno Eidyyn


Merlin foi o mais poderoso de todos os magos e profetas da Bretanha. Era filho de uma sacerdotisa com um incubo. Do demónio do pai herdara a inteligência, da mãe o belo físico. Já na velhice, Merlin tornara-se um grão-druída. Vivia em Avalon, cercado por sacerdotes e sacerdotisas. Fora conselheiro do poderoso Rei Arthur.

No seu reino, construído sobre os mistérios do mundo, assistiu à invasão dos saxões e à chegada dos cristãos, que aos poucos, dominaram toda a fé das ilhas britânicas. Ameaçado pelos princípios e tradições cristãs, o velho mago assistiu à perseguição aos costumes dos druidas, e a extinção da sua fé. Merlin aprendeu a odiar os cristãos.

Ignorando os invasores da Bretanha, Merlin continuou a praticar as mais poderosas magias. Conhecia todos os mistérios do céu e da terra, dos homens e dos deuses, da vida e da morte. Para combater a ameaça da cristianização do seu povo, Merlin reuniu, em Avalon, os maiores cavaleiros dos reinos celtas. Ao lado de tão rudes, valentes e sanguinários homens, partiu numa busca infindável, por todas as terras das ilhas britânicas, dos Treze Tesouros da Bretanha, dados pelos deuses aos seus antepassados, e que se encontravam dispersos. Ao reunir os treze objectos sagrados, Merlin tornar-se-ia o mais poderoso de todos os magos, invencível, capaz de derrotar todos os invasores. Ao devolver os objectos aos deuses, eles compensariam com vigor as ilhas e o seu povo.

Doze dos tesouros foram encontrados e reunidos. Faltava o décimo terceiro, o caldeirão de Clyddno Eiddyn. O poderoso caldeirão não poderia ser encontrado por um cavaleiro, e sim por uma virgem. Para cumprir a missão, Merlin lançou mão da mais bela das suas sacerdotisas, Nimue, por quem nutria uma grande paixão.


Diante do caldeirão, Merlin confidenciou à amada que de dentro dele viria a poção da vida eterna. Fascinada pela promessa, Nimue aprisionou Merlin num carvalho, e roubou-lhe o precioso objecto. A bela amante do mago desapareceu, levando o caldeirão. Preparou nele todas as poções mágicas que aprendera com o mestre e, na ilusão de que alcançaria a beleza e juventude eternas, atirou-se ao caldeirão, morrendo escaldada.

Ao libertar-se da prisão do carvalho, Merlin procurou em vão, pelo caldeirão mágico. Reuniu os mais valentes dos cavaleiros britânicos, mas jamais encontrou o poderoso talismã. Perdido o caldeirão de Clyddno Eiddyn, as iniciações dos cultos aos deuses pagãos enfraqueceram. Outra fé tomou conta da Bretanha e Merlin viu a suas tradições perdidas e os seus deuses extintos.


(Lenda Medieval)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Descobrir o Tarot com as Lendas Arturianas: O Mago

The Arthurian Tarot - Anne-Marie Ferguson
(clique na imagem para ampliar)

Merlin retira-se para o isolamento da sua gruta na montanha. Rodeado pela natureza, o mago é capaz de se centrar e ligar-se às forças que actuam através de si. Esta existência solitária permite-lhe ouvir as palavras do vento e saber das coisas que estão para vir.

Merlin é o guardião da Nascente Sagrada, assegurando o uso sensato e honrado dos recursos preciosos. Um lobo faz-lhe companhia, simbolizando a sensibilidade do mago às forças selvagens. Os seus poderes advêm da compreensão da sua natureza e não da tentativa de domínio. Em vez de baseada no medo, a sua relação é de respeito mútuo.

Dedaleiras crescem ao longo do riacho. Associadas ao mundo feérico, lembram que Merlin não está só. Na verdade, ele está rodeado e é assistido pelos espíritos invisíveis do bosque - as dríades. A planta em si é extremamente venenosa - pode trazer a morte - mas se for cuidadosamente preparada, traz a dádiva da vida. Isto ilustra a preparação minuciosa, o treino rigoroso e o conhecimento necessários para alguém aconselhar ou liderar outros. Serve também de aviso ao excesso de confiança, pois há sempre perigo quando se lidam com poderes de natureza dual.

O manto azul de Merlin representa a sua posição de honra no mundo dos homens, enquanto que as penas simbolizam a metamorfose e a ascensão espiritual do xamã.

sábado, 3 de julho de 2010

Merlim

Merlim, sábio do Outro Mundo, era um vidente inspirado e um mago místico, um prudente conselheiro e leal amigo. Esta impressionante encenação capta a natureza mística e visionária dos bardos celtas enraizada numa estreita afinidade com a natureza. (Merlin, de Alan Lee, 1984)

Merlim é uma figura multifacetada: druida, bardo, monge, mago, astrónomo, necromante, jovem e velho sábio. Conhecido também como vidente e profeta, é o principal conselheiro do rei Artur.

Acredita-se que a história de Merlim tem a sua origem nas lendas sobre um bardo e profeta celta, que terá vivido no século VI dc, de seu nome Myrddin. Estas lendas dão conta da sua responsabilidade na criação de conflitos entre os chefes britânicos causando a Batalha de Arderydd. Como castigo (sobrenatural), Myrddin perdeu a razão e foi desterrado para a floresta de Celidon, em terras escocesas.

Merlim aparece pela primeira vez, na sua forma literária, em History of the Kings of Britain, de Geoffrey de Monmouth, no início do século XII. A sua magia era de tal modo poderosa que, segundo esta obra, lhe terá proporcionado os meios para o transporte de Stonehenge, do seu sítio original na Irlanda, para a planície de Salisbury.

Monmouth também escreveu um poema em latim intitulado Vita Merlini. Aqui, Merlim é apresentado como filho de um demónio e de uma freira. Embora baptizado como cristão, detinha ainda poderes fabulosos herdados do seu pai demoníaco.

Noções cristãs e pré-cristãs combinam-se de modo bizarro na orientação que o mago proporcionou ao pai de Artur. Merlim apoiou Uther Pendragon e empregou os seus poderes para que este dormisse com Igraine, esposa do Duque da Cornualha, disfarçando-o sob a aparência do próprio marido. Com este embuste, Artur foi concebido. De acordo com Tales of King Arthur, de Thomas Malory, a condição imposta a Uther para a concretização do engodo foi a posterior entrega da educação de Artur a Merlim. É também a Merlim que Malory atribui a criação da Távola Redonda, presente para Uther Pendragon. E é também Merlim o responsável pela espada encravada na pedra que só Artur consegue arrancar, provando o seu direito ao trono.

Quando ascendeu ao trono, o rei Artur depositou a sua confiança nos conselhos do mago e serviu-se amiúde deste como seu mensageiro já que, como muitos deuses e deusas celtas, este assumia a forma que quisesse.

Merlim e Nimue, de Edward Burne-Jones, c.1870


Merlim, apesar de toda a sua sabedoria, foi enfeitiçado pela Dama do Lago que usou para seus próprios fins o amor do mago - extorquiu-lhe os poderes e devassou-lhe os conhecimentos secretos. Merlim deixou-se atrair para debaixo de uma pedra onde ficou preso pelas suas próprias artes mágicas. Numa outra lenda, Nimue encantou Merlim sob um espinheiro e depois enrolou o seu véu de volta dele, criando uma torre de ar invisível na qual ele ficou para sempre aprisionado. Diz-se que a sua voz ainda se pode ouvir no lamento do vento roçando as folhas.
 
No romance Suite de Merlin, o túmulo de Merlim, conhecido como "Perron de Merlin", tornou-se num ponto de encontro dos cavaleiros da Távola Redonda, quando de partida para as suas aventuras. Dir-se-ia que, mesmo na sua ausência, o mago continuava a influenciar o mundo de Artur.

Referência bibliográfica:

COTTERELL, Arthur, Enciclopédia de Mitologia, Central Livros LDA, 1998