sábado, 22 de março de 2014
Lá no centro do mar...
Lá no centro do mar, lá nos confins
Onde nascem os ventos, onde o sol
Sobre as águas doiradas se demora;
Lá no espaço das fontes e verduras,
Dos brandos animais, da terra virgem,
Onde cantam as aves naturais:
Meu amor, minha ilha descoberta,
É de longe, da vida naufragada,
Que descanso nas praias do teu ventre,
Enquanto lentamente as mãos do vento,
Ao passar sobre o peito e as colinas,
Erguem ondas de fogo em movimento.
José Saramago
domingo, 22 de dezembro de 2013
quinta-feira, 28 de março de 2013
Madrigal
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| Arthur Hughes, Pained Heart Sigh No More Ladies |
Ainda é possível este amor
como um regresso ao paraíso ?
Aroma apenas de uma flor?
O beijo apenas de um sorriso ?
Qual a resposta que preciso ?
E nada digo ! E nada dizes !
Tudo nos basta num olhar
E que tu, mão, lisa, deslizes
Por sobre a minha, devagar ...
Com pouco somos tão felizes
Que é já demais pedir luar !
E é já demais esta poesia
Se há cada vez menos valor
Nas tais palavras que diria
Para dizer-te o som e a cor
De um coração em harmonia
Que só se diz, dizendo: Amor !
António Manuel Couto Viana (1923-2010)
quarta-feira, 27 de março de 2013
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Tristão e Isolda
Sobre o mar de Setembro velado de bruma
O sol velado desce
Impregnando de oiro a espuma
Onde a mais vasta aventura floresce.
Tristão e Isolda que eu sempre vi passar
Num fundo de horizontes marítimos
Trespassados como o mar
Pela fatalidade fantástica dos ritmos
Caminham na agonia desta tarde
Onde uma ânsia irmã da sua arde.
Tristão e Isolda que como o Outono,
Rolando de abandono em abandono,
Traziam em si suspensa
Indizivelmente a presença
Extasiada da morte.
Sophia de Mello Breyner Andresen
O sol velado desce
Impregnando de oiro a espuma
Onde a mais vasta aventura floresce.
Tristão e Isolda que eu sempre vi passar
Num fundo de horizontes marítimos
Trespassados como o mar
Pela fatalidade fantástica dos ritmos
Caminham na agonia desta tarde
Onde uma ânsia irmã da sua arde.
Tristão e Isolda que como o Outono,
Rolando de abandono em abandono,
Traziam em si suspensa
Indizivelmente a presença
Extasiada da morte.
Sophia de Mello Breyner Andresen
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| Tristão e Isolda, de Maurice Lalau, 1909 |
sábado, 16 de fevereiro de 2013
A Jornada de Maelduin - VI - a Ilha das Árvores
"Na tradição celta, o Outro Mundo (ou o Além) é um lugar de realidade superior, onde vivem os deuses e a plenitude do potencial individual é revelada. Não é um lugar de fantasmas e horrores, como na tradição clássica cristã. Em vez disso, encontramos ilhas repletas de salmões, salões de festas e pilares de prata que se erguem do mar. Há muitos desafios na forma de grandes animais, incríveis gigantes, ilhas de riso e lágrimas incessantes, mas cada um tem uma lição a ensinar. (...)
A jornada de Maelduin leva-o do mundo onde os homens e os seus feitos de armas predominam para o Outro Mundo, no qual vivem mulheres e maravilhas. O seu immram (jornada mística) torna-se uma profunda iniciação, permitindo-lhe tornar-se um adulto maduro. O que começa como uma viagem para a vingança contra os assassinos do seu pai, torna-se numa jornada educativa e numa exploração do Outro Mundo, conduzida pelo seu pai, ausente, do outro lado, o da morte."
Chegaram a uma ilha de árvores. Maelduin pegou num ramo. Após três dias, três maçãs começaram a crescer no galho, sustentando-os por quarenta dias.
Na tradição celta, a maçã é uma fruta da vida eterna. O maravilhoso ramo de maçãs é uma amostra da árvore sobrenatural que alimenta o espírito. A ilha é como o reino paradisíaco do Outro Mundo, Avalon, a Ilha das Maçãs, onde o rei Artur recupera a sua saúde. Nesta ilha, os viajantes aprendem a deixar que os seus dons e percepções naturais amadureçam, um aspecto importante da viagem xamanística.
Caitlin Matthews, O Livro Celta dos Mortos
A jornada de Maelduin leva-o do mundo onde os homens e os seus feitos de armas predominam para o Outro Mundo, no qual vivem mulheres e maravilhas. O seu immram (jornada mística) torna-se uma profunda iniciação, permitindo-lhe tornar-se um adulto maduro. O que começa como uma viagem para a vingança contra os assassinos do seu pai, torna-se numa jornada educativa e numa exploração do Outro Mundo, conduzida pelo seu pai, ausente, do outro lado, o da morte."
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| Arthur Loureiro, Primavera, 1891 |
Chegaram a uma ilha de árvores. Maelduin pegou num ramo. Após três dias, três maçãs começaram a crescer no galho, sustentando-os por quarenta dias.
Na tradição celta, a maçã é uma fruta da vida eterna. O maravilhoso ramo de maçãs é uma amostra da árvore sobrenatural que alimenta o espírito. A ilha é como o reino paradisíaco do Outro Mundo, Avalon, a Ilha das Maçãs, onde o rei Artur recupera a sua saúde. Nesta ilha, os viajantes aprendem a deixar que os seus dons e percepções naturais amadureçam, um aspecto importante da viagem xamanística.
Caitlin Matthews, O Livro Celta dos Mortos
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
A Jornada de Maelduin - V - a Ilha dos Salmões Abundantes
"Na tradição celta, o Outro Mundo (ou o Além) é um lugar de realidade superior, onde vivem os deuses e a plenitude do potencial individual é revelada. Não é um lugar de fantasmas e horrores, como na tradição clássica cristã. Em vez disso, encontramos ilhas repletas de salmões, salões de festas e pilares de prata que se erguem do mar. Há muitos desafios na forma de grandes animais, incríveis gigantes, ilhas de riso e lágrimas incessantes, mas cada um tem uma lição a ensinar."
(...)
A jornada de Maelduin leva-o do mundo onde os homens e os seus feitos de armas predominam para o Outro Mundo, no qual vivem mulheres e maravilhas. O seu immram (jornada mística) torna-se uma profunda iniciação, permitindo-lhe tornar-se um adulto maduro. O que começa como uma viagem para a vingança contra os assassinos do seu pai, torna-se numa jornada educativa e numa exploração do Outro Mundo, conduzida pelo seu pai, ausente, do outro lado, o da morte."
V - A Ilha dos Salmões Abundantes
Uma semana inteira de fome levou-os a uma ilha onde havia uma casa na enseada. Uma porta era de frente para o mar; tinha uma válvula de pedra que abria quando o excesso de salmões carregados pela água ia de encontro a ela, permitindo que os peixes caíssem dentro da casa. Esta não era habitada, mas havia uma cama pronta para Maelduin e mais uma para cada três tripulantes, para não mencionar comida e bebida da melhor qualidade. Refastelaram-se na comida e louvaram a Deus.
Esta ilha mostra o poder totémico do salmão, um dos animais sobrenaturais mais importantes do Outro Mundo na tradição celta, associado à memória, inspiração e abundância. O albergue do outro mundo preparado para a tripulação é um reflexo da hospitalidade que era oferecida aos viajantes na antiga Irlanda, onde hospedarias e albergues eram governados por leis especiais. A hospitalidade ainda é um dever sagrado entre muitos povos. Aqui, os homens experimentam a abundância e a generosidade do Outro Mundo, que é rico em alimentos para aqueles cansados do duro materialismo do nosso mundo.
Caitlin Matthews, O Livro Celta dos Mortos
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Jus a lo Mar e lo Rio
Concepção: Pedro Caldeira Cabral
Arranjo: Jorge Varrecoso Gonçalves e Vasco Azevedo
Uma cantiga de amigo (marinha), da autoria de João Zorro, o jogral de Lisboa e do Tejo (viveu certamente durante o reinado de D. Dinis): fala a donzela (namorada) da sua decisão ou desejo de ir ver o barco que o rei mandou preparar para uma missão e nela deseja partir com o seu amigo.
terça-feira, 27 de novembro de 2012
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
O Romance de Amadis: III - Elisena
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| Anne François Louis Janmot |
Como tudo estivesse sossegado e o ermo silêncio lhes fosse aconselhando ânimo, logo naquela noite Darioleta encaminhou a infanta e, cautelosas, saíram ambas ao pomar. Fazia luar muito claro. Darioleta, olhando Elisena, abriu-lhe o manto, remirou-lhe o corpo, que ela trazia nu, só com camisa, e segredou, rindo baixinho:
- Em boa hora nasceu aquele que vos vai ter!
Sorriu a infanta e tornou-lhe:
- Dizei antes que fui bem-aventurada em me dar Deus tal senhor.
Com passinhos tão aveludados quanto lho ia pedindo o melindre da empresa, foram as duas andando à surda, sob a Lua.
Entretanto Perion, com a queixa do coração e a esperança que Darioleta nele lhe fora plantar, não pudera adormecer. Caíra agora em modorra, e sonhava; padecia aflito os tratos que lhe estavam dando, pois é maravilha representar-nos a mente tão vivo o que só nela própria se engendra. Sonhava que alguém entrara por uma porta falsa naquela câmara, sem que se pudesse defender do inimigo chegado à sua beira.
E o inimigo fora-se a ele, abria-lhe as costas com as unhas e tanto remexera que lhe agarrara o coração.
- Porque me fazeis tal crueza? - gemia Perion a labutar nas vascas do pesadelo.
Afogado em dor, vira el-rei o seu próprio coração levado à janela, donde fora atirado às águas de um rio.
Enquanto el-rei Perion pelejava no sonho, a infanta e a sua guia vinham chegando à porta da câmara. Elisena tremia toda. Ao tocarem na aldraba, o ferro tiniu. Perion acordou espavorido e benzeu-se.
Neste ponto iam entrar as donzelas e, como ele sentisse rumor, temeu-se de traição e saltou do leito, empunhando a espada contra os vultos.
- Senhor, isso que é? - segredou-lhe Darioleta.
Reconhecendo então Elisena, foi tomá-la Perion nos braços. Darioleta disse à infanta:
- Ficai, senhora, que se vos defendestes de muitos, e ele de muitas também se defendeu, mandou Deus que vos não defendêsseis um do outro.
E, vendo a espada de e-rei, tomou-a a donzela em sinal do juramento que ele fizera, e saiu.
Perion, olhando Elisena à luz das tochas que ardiam, parecia-lhe que nela se ajuntavam todas as formosuras do mundo.
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| Edmund Dulac |
Antes de a alva romper, veio Darioleta pela infanta e, indo as duas dormir, nada se soube em palácio.
Assim em dez noites seguidas se amaram Perion e Elisena, e em cada uma guiava Darioleta a infanta até à câmara onde os desígnios do Senhor se cumpriam.
Por isso o Senhor juntara os dois, mudando para tal fim a um e a outro: a ele, tirando-lhe a liberdade com que correra aventuras, fazendo-lhe a ela baixar os formosos olhos à terra. Em uma noite, perguntou Elisena ao que já tinha por esposo:
- E quando vos fordes, que há-de ser de mim?
Respondeu-lhe Perion, sentindo já também a dor da ausência:
- Quando eu me for deixo-vos o coração, e ele nos dará forças, a vós para esperar um tempo, a mim para cedo tornar.
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| Frank Dicksee, La Belle Dame sans Merci, 1900 |
Ao cabo daqueles dias el-rei Perion acordou e obrigou sua vontade, decidindo-se à partida. Bem se pode dizer que acordara, porque o verdadeiro amor, ao encher coração de homem, de tal sorte o eleva e apura que o livra do peso do mundo. Além da pena principal que lhe fazia o apartar-se de Elisena, sentia el-rei outro grande cuidado, e este lho estava dando o sonho que tivera naquela primeira noite do seu amor. Queria saber como os sábios do seu reino entenderiam aquilo do coração deitado ao rio, pois desde que tal coisa sonhara não pudera recobrar o ânimo seguro. Tinha o sonho por aviso misterioso ou temerosa profecia.
Despediu-se de el-rei Garinter com palavras de muita cortesia, e ouviu outras de grande estimação. Mas, quando quis cingir a espada, não a achou. Acanhou-se de a procurar e não se atreveu a pedi-la, o que muito lhe custava, porque a espada era boa e formosa.
E partiu daquele reino.
Porém antes falara com Darioleta, com quem desabafou a pena em que ia e lhe contou aquela em que sua senhora ficava.
- Senhor, a minha senhora não pode viver sem vós!
- Pois eu vo-la recomendo como se fosse a minha alma!
E, tirando do dedo um formoso anel, de dois iguais que trazia, deu-lho para que lho levasse por seu amor.
terça-feira, 9 de outubro de 2012
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Canção da Minha Ternura
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| Alphonse Osbert, La Muse au Lever du Soleil, 1918 |
Rondaste o meu castelo solitário
como um rio de vozes e de gestos;
baixei as minhas pontes fatigadas
e conheci teus lumes, teus agrados
teus olhos de ouro negro que confundem;
andei na tua voz como num rio
de fogo e mel e raros peixes belos,
cheguei na tua ilha e atrás da porta
me deste o banquete dos ardores
teus.
Mas às vezes sou quem volta
a erguer as pontes e cavar o fosso
e agora em sua torre, ternamente,
sem mágoa se debruça nas varandas
vendo-te ao longe , barco nessas águas,
querendo ainda estar se regressares
-porque seria pena naufragarmos
se poderias ter, sem tantas dores,
viagens e chegadas nos amores
meus.
Lya Luft
sábado, 29 de setembro de 2012
A Jornada de Maelduin - IV - A Ilha dos Cavaleiros Invisíveis
"Na tradição celta, o Outro Mundo (ou o Além) é um lugar de realidade superior, onde vivem os deuses e a plenitude do potencial individual é revelada. Não é um lugar de fantasmas e horrores, como na tradição clássica cristã. Em vez disso, encontramos ilhas repletas de salmões, salões de festas e pilares de prata que se erguem do mar. Há muitos desafios na forma de grandes animais, incríveis gigantes, ilhas de riso e lágrimas incessantes, mas cada um tem uma lição a ensinar."
(...)
"A jornada de Maelduin leva-o do mundo onde os homens e os seus feitos de armas predominam para o Outro Mundo, no qual vivem mulheres e maravilhas. O seu immram (jornada mística) torna-se uma profunda iniciação, permitindo-lhe tornar-se um adulto maduro. O que começa como uma viagem para a vingança contra os assassinos do seu pai, torna-se numa jornada educativa e numa exploração do Outro Mundo, conduzida pelo seu pai, ausente, do outro lado, o da morte."
IV - Ilha dos Cavaleiros Invisíveis
Germano foi sorteado para explorar a próxima ilha, mas Diurán acompanhou-o. Encontraram na areia enormes marcas de cascos de cavalos, cada uma do tamanho de uma vela, e os restos de um grande banquete. Temerosos pelo tamanho do que viam, os dois homens retornaram rapidamente ao barco, de onde podiam ver uma corrida de cavalos e ouvir os sons de cavaleiros gritando para as suas montadas. Mas os cavaleiros não eram vistos.
A tripulação recebe a primeira indicação de que não é a única espécie inteligente neste reino. Ninguém tem ainda a sensibilidade para ver os seres do Outro Mundo, embora já ouçam vozes. Isto corresponde ao modo como os viajantes começam a compreender a extensão e organização do Outro Mundo, uma experiência probatória.
Caitlin Matthews, O Livro Celta dos Mortos
IV - Ilha dos Cavaleiros Invisíveis
Germano foi sorteado para explorar a próxima ilha, mas Diurán acompanhou-o. Encontraram na areia enormes marcas de cascos de cavalos, cada uma do tamanho de uma vela, e os restos de um grande banquete. Temerosos pelo tamanho do que viam, os dois homens retornaram rapidamente ao barco, de onde podiam ver uma corrida de cavalos e ouvir os sons de cavaleiros gritando para as suas montadas. Mas os cavaleiros não eram vistos.
A tripulação recebe a primeira indicação de que não é a única espécie inteligente neste reino. Ninguém tem ainda a sensibilidade para ver os seres do Outro Mundo, embora já ouçam vozes. Isto corresponde ao modo como os viajantes começam a compreender a extensão e organização do Outro Mundo, uma experiência probatória.
Caitlin Matthews, O Livro Celta dos Mortos
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
A Jornada de Maelduin - III - A Ilha do Cavalo com Patas de Cão
"Na tradição celta, o Outro Mundo (ou o Além) é um lugar de realidade superior, onde vivem os deuses e a plenitude do potencial individual é revelada. Não é um lugar de fantasmas e horrores, como na tradição clássica cristã. Em vez disso, encontramos ilhas repletas de salmões, salões de festas e pilares de prata que se erguem do mar. Há muitos desafios na forma de grandes animais, incríveis gigantes, ilhas de riso e lágrimas incessantes, mas cada um tem uma lição a ensinar."
(...)
"A jornada de Maelduin leva-o do mundo onde os homens e os seus feitos de armas predominam para o Outro Mundo, no qual vivem mulheres e maravilhas. O seu immram (jornada mística) torna-se uma profunda iniciação, permitindo-lhe tornar-se um adulto maduro. O que começa como uma viagem para a vingança contra os assassinos do seu pai, torna-se numa jornada educativa e numa exploração do Outro Mundo, conduzida pelo seu pai, ausente, do outro lado, o da morte."
III - A Ilha do Cavalo com Patas de Cão
A próxima ilha que encontram tinha um cavalo com patas de cão. Com a ansiedade própria do cachorro, o animal saltou sobre eles para comê-los. Quando os viu a fugir, a estranha criatura começou a escavar terra e pedras para os atingir.
O cavalo era um nobre animal de reverência na tradição celta. A combinação da ansiedade de um cão, da velocidade de um cavalo e da destreza de um humano é assustadora. Este é um dos muitos encontros nos quais os homens são uma parte importante da cadeia alimentar: uma experiência salutar para quem está acostumado a ser o agressor. As primeiras explorações da jornada interior são geralmente confusas, parecidas com os sonhos que sucedem a um dia agitado.
in O Livro Celta dos Mortos - A Jornada de Maelduin, de Caitlín Matthews
sábado, 11 de agosto de 2012
A Jornada de Maelduin - II - A Ilha dos Muitos Pássaros
"Na tradição celta, o Outro Mundo (ou o Além) é um lugar de realidade superior, onde vivem os deuses e a plenitude do potencial individual é revelada. Não é um lugar de fantasmas e horrores, como na tradição clássica cristã. Em vez disso, encontramos ilhas repletas de salmões, salões de festas e pilares de prata que se erguem do mar. Há muitos desafios na forma de grandes animais, incríveis gigantes, ilhas de riso e lágrimas incessantes, mas cada um tem uma lição a ensinar."
(...)
"A jornada de Maelduin leva-o do mundo onde os homens e os seus feitos de armas predominam para o Outro Mundo, no qual vivem mulheres e maravilhas. O seu immram (jornada mística) torna-se uma profunda iniciação, permitindo-lhe tornar-se um adulto maduro. O que começa como uma viagem para a vingança contra os assassinos do seu pai, torna-se numa jornada educativa e numa exploração do Outro Mundo, conduzida pelo seu pai, ausente, do outro lado, o da morte."
A uma ilha eles prosseguiram viagem, e lá encontraram gentis pássaros, abundantemente pousados aos milhares. Carregaram o barco com eles, suave foi a sua passagem; agradável a ilha após a jornada, uma curta estada maravilhosa.
Os homens começam a procurar comida, que, às vezes, se torna uma urgência premente. O Outro Mundo oferece uma abundância de coisas boas, embora haja frequentemente condições que devem ser observadas para que eles não transgridam os limites da hospitalidade. Os pássaros são animais de fala sobrenatural, geralmente mensageiros. Aqui eles proporcionam a Maelduin o meio de sobreviver num ambiente estranho. É importante alimentar-se correctamente para que os homens se sintonizem com o Outro Mundo e recebam os seus benefícios.
in O Livro Celta dos Mortos - A Jornada de Maelduin, de Caitlín Matthews
domingo, 5 de agosto de 2012
A Jornada de Maelduin - I - A Ilha das Formigas Gigantes
"Na tradição celta, o Outro Mundo (ou o Além) é um lugar de realidade superior, onde vivem os deuses e a plenitude do potencial individual é revelada. Não é um lugar de fantasmas e horrores, como na tradição clássica cristã. Em vez disso, encontramos ilhas repletas de salmões, salões de festas e pilares de prata que se erguem do mar. Há muitos desafios na forma de grandes animais, incríveis gigantes, ilhas de riso e lágrimas incessantes, mas cada um tem uma lição a ensinar."
(...)
"A jornada de Maelduin leva-o do mundo onde os homens e os seus feitos de armas predominam para o Outro Mundo, no qual vivem mulheres e maravilhas. O seu immram (jornada mística) torna-se uma profunda iniciação, permitindo-lhe tornar-se um adulto maduro. O que começa como uma viagem para a vingança contra os assassinos do seu pai, torna-se numa jornada educativa e numa exploração do Outro Mundo, conduzida pelo seu pai, ausente, do outro lado, o da morte."
I - A Ilha das Formigas Gigantes
Viajaram três dias e três noites até ouvirem o quebrar das ondas sobre a terra. Virando para nordeste, encontraram uma ilha onde viviam enxames de formigas gigantes, do tamanho de potros, que tentaram devorar a tripulação e o barco. Mas os homens fugiram.
O início da viagem oferece um período de reflexão quando os homens estão sozinhos com os elementos. Os seus temores são representados pelas formigas gigantes, o primeiro de muitos encontros com animais e seres gigantescos. Esta característica do tamanho astronómico é comum em viagens xamanísticas ao Outro Mundo.(veja-se o exemplo de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll). A experiência inicial do viajante interior geralmente é de medo e expectativa. Viajar para o Outro Mundo costuma trazer à tona ansiedades latentes e dúvidas de si mesmo, principalmente diante do desconhecido. Uma maior experiência gera confiança, mas a solidão é o obstáculo inicial que traz a pergunta: "Quem sou eu, na realidade?"
in O Livro Celta dos Mortos - A Jornada de Maelduin, de Caitlín Matthews
I - A Ilha das Formigas Gigantes
Viajaram três dias e três noites até ouvirem o quebrar das ondas sobre a terra. Virando para nordeste, encontraram uma ilha onde viviam enxames de formigas gigantes, do tamanho de potros, que tentaram devorar a tripulação e o barco. Mas os homens fugiram.
O início da viagem oferece um período de reflexão quando os homens estão sozinhos com os elementos. Os seus temores são representados pelas formigas gigantes, o primeiro de muitos encontros com animais e seres gigantescos. Esta característica do tamanho astronómico é comum em viagens xamanísticas ao Outro Mundo.(veja-se o exemplo de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll). A experiência inicial do viajante interior geralmente é de medo e expectativa. Viajar para o Outro Mundo costuma trazer à tona ansiedades latentes e dúvidas de si mesmo, principalmente diante do desconhecido. Uma maior experiência gera confiança, mas a solidão é o obstáculo inicial que traz a pergunta: "Quem sou eu, na realidade?"
in O Livro Celta dos Mortos - A Jornada de Maelduin, de Caitlín Matthews
terça-feira, 31 de julho de 2012
quinta-feira, 26 de julho de 2012
O Romance de Amadis: II - Darioleta
Paul Delaroche, L' Art Gothique ou le Moyen Âge
Carregados que foram em dois palafréns o leão e o veado, para a vila se encaminharam com grande prazer os senhores; do que sendo avisada a rainha, de mui ricos atavios se enfeitaram os paços e foram postas as mesas. Quando se juntaram para comer, sentaram-se a uma mais alta os dois reis e a rainha, com a infanta Elisena em outra a par desta; e ali foram servidos como em casa de tão bom senhor convinha.
Pois, senhores, sendo a infanta tão virtuosa e Perion tão alto cavaleiro, em tal hora se olharam que o grande recato dela não pôde tanto que não fosse presa de amor; e Perion assim também da infanta, pois seu próprio coração o havia livre. De maneira que, um e outro, todo o tempo estiveram como se as almas que até ali tinham tido lhes tivessem saído dos corpos e outras houvessem entrado que eles próprios não conhecessem. Recolhendo-se a rainha à sua câmara, levantou-se Elisena e, caindo-lhe do regaço um anel que tirara para se lavar, a fim de o apanhar se baixou, quando Perion o tomou e lho deu.
No dar e receber anel, as mãos deles encontraram-se e Perion apertou a da infanta, que, olhando-o com amorosos olhos, lhe agradeceu, corando.
Perion disse-lhe baixinho:
- Não será este o último serviço, pois toda a vida a quero empregar em vos servir!
Tão turbada se foi Elisena que a vista quase perdia. É que o efeito do amor, em alma que fora tão isenta, ia lavrando com dobrado lume.
Não podendo calar dor tão nova, descobriu o seu segredo a uma donzela da corte de quem muito se fiava e se chamava Darioleta. E, com lágrimas nos olhos e ânsia no coração, pediu-lhe conselho sobre como poderia saber se Perion amava outra mulher e se aquele amoroso rosto, com que a estivera olhando, seria prova de amor igual ao seu. Pasmou Darioleta com tal mudança em pessoa para quem estas coisas eram tão desusadas. Teve por caso peregrino que assim, de súbito, quisesse saborear o humano quem até ali desdenhara quanto não fosse divino. Porém logo prometeu servi-la, vendo que o amor não deixara em sua senhora cantinho onde coubessem razão ou conselho.
Determinando-se, pois a ajudar sem detença a nova enamorada, encaminhou-se Darioleta para a câmara d'el-rei Perion, a tempo que o escudeiro de el-rei ia levar os vestidos do seu senhor. Pediu-lhos a donzela, dizendo que ela mesma os levaria.
Tomando por maior honra o que a seu senhor se fazia, deu-lhos o escudeiro; e Darioleta, entrando na câmara de Perion, por este foi reconhecida como a donzela da infanta:
- Boa donzela, que me quereis?
- Senhor, dar-vos de vestir.
- Nu de alegria está meu coração!
- Porquê, senhor?
- Porque sempre livre fui, a este reino livre vim, e agora recebi ferida mortal. Se me achásseis remédio, eu vos daria bom galardão.
Respondeu Darioleta que muito a contentava servir tão bom senhor, se soubesse em quê. Ora, Darioleta sabia muito bem aquilo em que poderia servir el-rei Perion. Mas alegrava-se de o ouvir falar do amor que Elisena lhe merecia, comparava as palavras dele com as que lhe ouvira a ela, e tudo ia encaminhando ao ponto que desejava.
Respondeu-lhe el-rei:
- Se me prometeis guardar segredo do que vos eu disser, descobrindo-o só onde de razão, então direi.
E, prometendo-lho Darioleta, disse-lhe Perion que vivera até ali sem haver empregado o coração; que andava costumado a correr aventuras, mas não a penar cuidados; que em forte hora olhara Elisena, pois tão cuidoso estava que se julgava a ponto de morrer, e enfim que morria se não achasse algum remédio.
- Eu vos digo que nunca pensei que o amor fosse assim! - acabou Perion por confessar. - Mas, pelo que estou sentindo, sei agora como ele é.
Tornou-lhe a donzela:
- Senhor, se me prometerdes como cavaleiro, guardando em tudo a verdade a que mais obrigado sois como rei, de, a seu tempo, a receber por mulher, então eu farei coisa que não só o coração vos contente, mas também contente o dela, onde mora amor igual. Porém, se o não prometerdes, minha senhora não alcançareis, nem vossas palavras tomarei como de honrado amor.
El-rei Perion, que obedecia também ao mando de Deus para que tudo sucedesse como adiante ouvireis, pôs a mão na cruz da sua espada, e jurou:
- Juro nesta cruz e espada, com que a Cavalaria recebi, de fazer quanto por minha senhora Elisena requerido for.
Alegrou-se Darioleta e despediu-se:
- Pois folgai ora, que eu farei o que vos disse!
Buscando a infanta, contou-lhe quanto se passara com el-rei Perion, e repetiu-lhe as palavras de tão seguro amor que tinha ouvido ao novo enamorado.
Elisena abraçou-a, tomada de uma alegria como não sentira nunca:
- Oh! Minha amiga verdadeira! Mas quando soará a hora em que em meus braços aperte a quem por senhor me foi dado?
Explicou-lhe Darioleta que, dando a câmara de el-rei Garinter para o pomar, a ela iriam seguras quando todos à noite estivessem a dormir. E lembrando-lhe Elisena que na mesma câmara ficava el-rei seu pai, a donzela prometeu que tudo havia de fazer bem.
Quando caiu a noite, Darioleta apartou-se com o escudeiro de el-rei Perion e perguntou-lhe:
- Ora dizei-me lá: quem é a mulher a quem vosso senhor ama com entranhado amor?
- O meu senhor - respondeu, rindo, o escudeiro - ama a todas, mas a nenhuma, afinal!
Ficou a donzela contente de receber resposta que tão bem acertava com o que a tal respeito lhe dissera o próprio Perion.
Neste ponto acercou-se el-rei Garinter e, vendo os dois conversando, perguntou à donzela que tinha ela que dizer àquele escudeiro.
- Por Deus, senhor, ele é que me chamou e disse que seu senhor costuma dormir sozinho em uma câmara, e vossa companhia certo o estorvará.
El-rei Garinter, muito honrado com o hóspede e querendo que ele se achasse bem, logo foi dizer a el-rei Perion que, levantando-se a Matinas, por ter muito em que lidar, o deixaria só para lhe não fazer estorvo.
Quando Darioleta viu que os reposteiros levavam de ali a cama de el-rei Garinter, foi contar à infanta quanto sucedia.
- Senhora - disse-lhe a donzela - fiz quanto vos prometi, mas temo que um dia julgueis que ajudei ao erro.
- Boa amiga - respondeu Elisena -, creio que Deus assim o quer! O que parece agora erro, será ao depois grande serviço seu.
E deste modo estiveram elas até que todos foram dormir.
O Romance de Amadis, reconstituído por Afonso Lopes Vieira(continua)
sexta-feira, 13 de julho de 2012
O Encoberto
Cavaleiro do Sonho e do Desejo,
guarda no santo Graal,
com a nossa Saudade e o nosso Beijo,
- o sangue de Portugal.
Sonho de além e de glória,
há tanto, há tanto
o sonha um Povo inteiro!
Maravilha e encanto
da nossa história:
- oh Manhã de Nevoeiro...
Oh manhã misteriosa
que alvoreces em nós teu rompante claror,
teu messiânico alvor,
manhã de além, alva saudosa,
- tu és nossa força que não passa,
teu sonho em nós revive ao longe e ao perto,
manhã sem dia, oh manhã de Graça,
em que há de vir o Encoberto...
Místico Paladino iluminado,
que ao areal arrastou nossa alma em flor
e jogou a sorrir nosso destino e sorte,
ele era vivo antes de Desejado,
ele era vivo em nosso sonho e amor,
- e nunca o levou a morte!
Ele é vivo e é eterno! Horas ansiadas
em que o sinto, no meu sangue, em mim...
Ele vive nas Ilhas Encantadas
da nossa alma sem fim...
E, oh maravilha!
em toda a hora do perigo e do temor,
o Encoberto volta da sua Ilha,
e salva-nos, e salva-nos, Senhor!...
E a Esperança imortal,
surda palpita na manhã rompente!
Cerra-se a névoa alucinadamente,
Portugal bóia no nevoeiro...
E o Cavaleiro
do Sonho e do Desejo
guarda no Santo Graal,
com a nossa Saudade e o nosso Beijo,
- o sangue de Portugal.
In Ilhas de Bruma, Afonso Lopes Vieira
guarda no santo Graal,
com a nossa Saudade e o nosso Beijo,
- o sangue de Portugal.
Sonho de além e de glória,
há tanto, há tanto
o sonha um Povo inteiro!
Maravilha e encanto
da nossa história:
- oh Manhã de Nevoeiro...
Oh manhã misteriosa
que alvoreces em nós teu rompante claror,
teu messiânico alvor,
manhã de além, alva saudosa,
- tu és nossa força que não passa,
teu sonho em nós revive ao longe e ao perto,
manhã sem dia, oh manhã de Graça,
em que há de vir o Encoberto...
Místico Paladino iluminado,
que ao areal arrastou nossa alma em flor
e jogou a sorrir nosso destino e sorte,
ele era vivo antes de Desejado,
ele era vivo em nosso sonho e amor,
- e nunca o levou a morte!
Ele é vivo e é eterno! Horas ansiadas
em que o sinto, no meu sangue, em mim...
Ele vive nas Ilhas Encantadas
da nossa alma sem fim...
E, oh maravilha!
em toda a hora do perigo e do temor,
o Encoberto volta da sua Ilha,
e salva-nos, e salva-nos, Senhor!...
E a Esperança imortal,
surda palpita na manhã rompente!
Cerra-se a névoa alucinadamente,
Portugal bóia no nevoeiro...
E o Cavaleiro
do Sonho e do Desejo
guarda no Santo Graal,
com a nossa Saudade e o nosso Beijo,
- o sangue de Portugal.
In Ilhas de Bruma, Afonso Lopes Vieira
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